Saiba mais: Vestuário

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Se quiser saber mais sobre a indumentária paulista, confira as dicas de textos, livros e sites recomendados. Você também pode consultar a coleção Terra Paulista: histórias, arte, costumes1 .

1.Texto
Resumo do texto A vida cotidiana dos paulistas: moradias, alimentação, indumentária2, de Paulo César Garcez Marins3.

Alimentação e vestuário no início da colonização

Nada restou das roupas dos paulistas do período colonial, a não ser descrições em inventários e testamentos. Essa inexistência é verificada em todo o país, na medida em que museus e coleções particulares conservam peças de vestuário produzidas apenas a partir do século XIX. Essa lacuna em relação às roupas colaborou para que historiadores e artistas plásticos desenvolvessem sua "criatividade" quanto à indumentária paulista do período colonial, sobretudo no tocante ao modo de vestir dos bandeirantes.

Pinturas e esculturas produzidas a partir da década de 1910, principalmente para encomendas oficiais da prefeitura paulistana, e em especial do Museu Paulista durante a gestão do historiador Afonso Taunay, fantasiaram os trajes e adereços dos aventureiros que partiam das vilas bandeirantes.

Chapéus de abas largas, camisa, gibão, calças, botas de cano longo e bolsa a tiracolo em estado impecável passaram a representar, nas obras de arte do século XX solicitadas por Taunay, os itens da vestimenta dos sertanistas. Mas essa indumentária foi inspirada sobretudo em uma representação visual de paulistas que não tinha nenhuma relação com o período das bandeiras. Trata-se da aquarela do francês Debret, Índios civilizados: soldados indígenas de Mogi das Cruzes combatendo botocudos, de 1827. Portanto, era uma imagem do século XIX que não refletia necessariamente as roupas dos bandeirantes dos séculos XVII e XVIII.

Ainda que houvesse, nos inventários, menção às roupas consagradas por Taunay, deve-se lembrar que seu uso era restrito às elites paulistas e, certamente, mais adequadas às cerimônias urbanas que às expedições através das matas. No entanto, esse fato não foi levado em conta por Taunay quando tomou essa imagem e as descrições dos inventários como base para as informações "históricas" com que subsidiou a elaboração das obras de arte encomendadas.

Os calçados, por exemplo, escasseavam entre os paulistas dos dois primeiros séculos. Depoimentos da época indicam os paulistas costumeiramente descalços, o que o número reduzido de calçados consante nos inventários confirma. As botas presentes nas representações artísticas de bandeirantes seriam não apenas raras como também inconvenientes e até mesmo desnecessárias. Os pés descalços eram apropriados para as veredas nos matos, facilitando o deslocamento rápido em meio ao emaranhado de plantas e ao solo úmido.

Além da couraça protetora feita de pele de anta para proteger o tronco, o restante da indumentária pode ser resumido nas palavras de Alcântara Machado, lembrando-se sempre que sua descrição restringe-se aos mais ricos sertanistas:

O bandeirante leva no corpo quase todo o seu fato: chapéu pardo roçado, ou carapuça, ou lenço e pano de cabeça; meias de cabrestilho ou cabresto, sapatos de vaca, carneira, cordovão ou vaqueta; ceroulas e camisa de algodão, roupeta e calções de baeta ou picote.

A maior parte dos integrantes das campanhas pelo sertão não tinha nem utilizava esse excesso de veste. Tudo muito diferente, portanto, da aparência garbosa dos bandeirantes pintados e esculpidos durante o século XX.

Nas vilas, o vestuário tendia à simplicidade, geralmente de tecidos grosseiros de algodão ou lã para uso cotidiano. As peças mais requintadas eram extremamente caras aos primeiros paulistas, o que tornava as rendas, a seda, o linho, as lãs e os algodões finos presentes apenas nas roupas de cerimônia, sempre em número muito reduzido, tanto para os homens quanto para as mulheres. Camisas para homens e mulheres, calções e ceroulas masculinas, saias femininas, capas, chapéus e meias estão arrolados minuciosamente nos inventários paulistanos dos três primeiros séculos, tal era o seu valor.

"Os vestidos são poucos e muita, a fazenda", sintetiza Alcântara Machado sobre o número de roupas requintadas das mulheres de elite. A raridade das vestes de cerimônia não era exclusividade dos paulistas, pois, mesmo na Europa, os trajes masculinos de gala ou os vestidos suntuosos escasseavam.

Os tempos do açúcar e das primeiras tropas

O território paulista foi um importante alvo das expedições que os naturalistas e artistas empreendiam após a chegada da família real no Brasil e a abertura dos portos às nações amigas, em 1808. O caráter necessariamente observador dos cientistas e artistas permitiu, tanto nos textos quanto nas imagens produzidas durante as viagens, a descrição de aspectos do cotidiano dos paulistas nesse período.

As representações visuais realizadas pelos estrangeiros são quase sempre marcadas pelo olhar atento ao exótico, ao inusitado. Não é a roupa banal que os fascina, mas sim, no caso dos paulistas, a profusão do uso de mantos por homens e mulheres.

Dos tropeiros foram registrados os enormes chapéus de abas largas, facas, selas e apetrechos de montaria, mas nada deteve tanto a atenção quanto os ponchos. Peça hoje associada exclusivamente aos gaúchos, o poncho era, na primeira metade do século XIX, sinal característico também dos paulistas.

Muito mais longos que os usados atualmente, os ponchos cobriam quase todo o corpo, aproximando-se de uma capa. Quando não havia necessidade de proteção contra a chuva e o frio, tinham suas laterais dobradas sobre os ombros, o que tornava imponente o porte do tropeiro.

Em 1827, o inglês Charles Landseer e o francês Jean-Baptiste Debret deixaram várias representações dos ponchos paulistas. Em 1823, portanto antes de ir a São Paulo, Debret realizou uma aquarela em que representa dois tropeiros paulistas pobres trajando calções e camisas simples de algodão, sem a opulência das vestes dos donos das tropas.

As mulheres foram também objeto de várias representações visuais nas primeiras décadas do século XIX. Os mantos de lã rústica azul ou preta causavam espanto aos viajantes estrangeiros ou àqueles vindos do Rio de Janeiro.

A associação dos mantos e das mantilhas à herança mourisca advinda da antiga ocupação muçulmana da Península Ibérica não escapava aos olhos dos viajantes. O pintor francês Aimé-Adrien Taunay produziu, em 1825, uma aquarela em que justapôs - e opôs - duas mulheres inteiramente cobertas por mantilhas e mantos pretos a uma senhora com uma menina, ambas trajadas à européia, que utilizavam capas de lã xadrez e chapéus de plumas de avestruz.

Os tempos do café - os modos de vestir da elite, das camadas populares, dos escravos e dos colonos

Uma multidão de caixeiros-viajantes passou a percorrer o interior paulista durante todo o século XIX e as primeiras décadas do seguinte para levar as novidades européias, que se consagravam também no Rio de Janeiro. Sedas francesas, cambraias de linho ou algodão e incontáveis casimiras de lã inglesa seguiam em direção às ricas fazendas de açúcar ou café. Rendas e bordados de Flandres ou da Irlanda, chapéus de feltro ou seda, fitas e pentes para cabelos, cintos, crinolinas (armações circulares de metal colocadas no forro de saias e vestidos para aumentar o volume das saias rodadas) e os imprescindíveis sapatos, botas e botinas, símbolos da condição livre ou senhorial no Brasil escravista, eram consumidos com avidez.

Quanto à indumentária masculina das elites paulistas, pode-se dizer que a antiga primazia da moda francesa nos séculos XVII e XVIII, que também dominava Portugal, daria lugar aos padrões ingleses mais sóbrios, rígidos e inspirados em roupas militares ou de montaria.

Era a vez dos costumes ingleses de lãs cada vez mais escuras, chapéus contidos, sapatos igualmente escuros e sóbrios. A discrição e os traços de uma masculinidade evidenciada por cortes justos ao corpo, quase como uma armadura, acentuaram-se na indumentária inglesa ao longo do século XIX, adotada pelas elites brasileiras, entre elas a de São Paulo. A casimira inglesa passou a vestir os ricos paulistas em calças, coletes, casacas e paletós.

O clima paulista, muito mais frio que o do Rio de Janeiro ou do Nordeste, favorecia esse afinamento com as modas masculinas geradas na úmida Grã-Bretanha. Cartolas e chapéus-coco coroavam as cabeças mais abastadas, sobretudo nas viagens à capital, à Corte ou à Europa.

Já para as mulheres de elite, a França continuava a ser a referência da indumentária ao longo do século XIX. A moda de vestidos leves e acinturados sob o busto, que caracterizava a era napoleônica, esteve presente em São Paulo.

No decorrer do século XX, as roupas masculinas das elites foram paulatinamente simplificadas. O colarinho duro de ponta quebrada deu lugar ao colarinho de pontas caídas, usado até hoje, as gravatas drapeadas ou entrelaçadas do século XIX foram vencidas pelas mais simples, como o formato atual, e os ternos de linho branco, gabardine ou lãs leves sobrepujaram os pesados costumes oitocentistas. Quanto às mulheres, tanto as saias curtas de cintura baixa dos anos 1920 quanto os cabelos curtos a la garçonne se espalharam pelo interior, apesar da resistência das longas e recatadas cabeleiras presas em coques ou tranças.

Os outros estratos da população paulista recebiam o impacto das modas européias na medida de suas posses. Miguelzinho Dutra, aquarelista ituano que viveu entre 1810 e 1875, deixou uma série de retratos de tipos paulistas realizados em torno da década de 1840, pelos quais se pode conhecer um pouco da indumentária desse período. Chapéus de palha estão presentes nas cabeças de homens pobres e médios, calças e camisas simples vestiam os tipos mais populares, enquanto os paulistas mais abastados trajavam casacas, camisas com gola de ponta e coletes floridos.

Para a roupa de escravos e escravas, o mais comum eram os calções e as camisas de algodão rústico em cores claras, bem como vestidos simples, apresentando poucas mudanças em relação aos padrões do século XVIII. Fotografias de Militão Augusto de Azevedo, tomadas na cidade de São Paulo, mostram várias afrodescentes, cativas ou não, portando roupas de inspiração francesa, sendo poucas as que ainda mantinham os mantos tradicionais em volta do corpo. Já entre os homens, predominavam os costumes simples e as camisas simples.

O algodão riscado aparecia nas camisas dos imigrantes italianos no campo, enquanto saia, blusa e aventais femininos, além de lenços e chapéus, compunham a vestimenta das mulheres, e as roupas de domingo eram apenas aquelas, limpas.

O comércio de roupas acontecia nos núcleos urbanos ou, o que era mais comum, nos caríssimos armazéns que os fazendeiros de café mantinham nas proximidades das moradias dos imigrantes.

O mesmo padrão simplificado das roupas dos italianos deve ter se repetido entre todos os outros colonos, na medida em que, das inúmeras expressões de indumentária tradicional trazidas pelos imigrantes, quase nada restou. Quimonos e calçados japoneses estão presentes apenas em ocasiões especiais, ligadas à memória da colônia, o que também ocorreu com trajes ditos "típicos" alemães, portugueses, espanhóis ou itálicos, que mesmo na Europa já estavam em desuso.

Dos caipiras aos caubóis

Os chapéus de palha, as camisas simples abotoadas na frente e as calças retas são traços comuns aos paulistas rurais do século XX. Para as mulheres, o excesso de babados e saias rodadas é uma fantasia junina distante dos vestidos retos de tecidos simples de algodão, dos lenços na cabeça ou dos chapéus simples para proteger do sol.

As camisas de flanela xadrez, as calças de tecido fino e as muitas rendas permanecem como a recriação suntuosa de um interior cujo cotidiano era bem mais difícil e austero.

Mais fantasiosas ainda quanto à indumentária costumeira dos paulistas do interior são as roupas de inspiração country norte-americana, que se disseminaram a partir da década de 1980, com excesso de babados de couro, chapéus altos de feltro e cintos com grandes fivelas de metal, tudo emprestado dos caubóis e da moda dos rodeios estrangeiros. Mas, se a princípio isso pode causar estranheza aos olhos mais conservadores, deve-se lembrar que as manifestações da cultura material dos paulistas foram quase sempre versões reelaboradas a partir da assimilação de diferentes culturas. Assim, aos poucos, o que parecia ser apenas estrangeiro passou também a ser paulista.

 

1 SETUBAL, Maria Alice (coord.). Coleção Terra Paulista: histórias, arte, costumes. São Paulo: Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária/ CENPEC, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. 3v. A coleção pode ser encontrada em bibliotecas de instituições educacionais e culturais.

2 Texto publicado na íntegra em: SETUBAL, Maria Alice (coord.). Modos de vida dos paulistas: identidades, famílias e espaços domésticos. São Paulo: Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária / CENPEC, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. v2.

3 Paulo César Garcez Marins é historiador, doutor em História Social, professor do Museu Paulista da Universidade de São Paulo e autor, entre outros trabalhos, do capítulo "Habitação e vizinhança - limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras", na coleção História da vida privada no Brasil.

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2. Bibliografia

ALMEIDA, Aluísio de. Vida e morte do tropeiro. São Paulo: Martins; Edusp, 1981.

ALVIM, Zuleika. Brava gente: os italianos em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1986.

BRUNO, Ernani da Silva. O equipamento da casa bandeirista segundo os antigos inventários e testamentos. São Paulo: PMSP/SMC/DPH, 1977.

CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 9ªed. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2001.

CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Bandeirantes na contramão da estória: um estudo iconográfico. Projeto História, 24, São Paulo, junho de 2002.

MACHADO, Alcântara. Vida e morte do bandeirante. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

MALUF, Marina. Ruídos da memória. São Paulo: Siciliano, 1995.

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (org.). Vida cotidiana em São Paulo no século XIX. São Paulo: Ateliê Editorial/Imprensa Oficial/UNESP, 1999.

SOUZA, Gilda de Mello. O espírito das roupas: a moda no século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

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3. Sites

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